3 de abr. de 2012

Revista Veja: E a credibilidade?

O maior desafio da imprensa

Coluna Econômica - 02/04/2012

Nos próximos meses, a liberdade de imprensa no Brasil enfrentará um dos maiores desafios da sua história: demonstrar capacidade de se abstrair do corporativismo e proceder a uma análise corajosa e isenta sobre fatos que começarão a jorrar nos próximos dias.

Trata-se da ligação da revista Veja com o crime organizado. Mais especificamente com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seu oficial maior, senador Demóstenes Torres.

Cachoeira elegeu Demóstenes. A revista transformou-se em um político influente, graças à apologia que fazia dele. Juntos, as três pontas produziam escândalos, em um esquema articulado.

Cachoeira armava escândalos, muitos dos quais contra adversários criminosos. A revista repercutia. Graças a essa repercussão, os adversários eram alijados dos esquemas, permitindo a Cachoeira tomar conta do pedaço.

Grande parte dos escândalos eram avalizados por Demóstenes Torres - como o caso Francisco Escórcio, figura folclórica do Senado, acusado pela revista de tentar espionar Demóstenes  e o governador goiano Marcone Perillo. A denúncia foi fundamental para o afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros. Depois, comprovou-se que tinha sido fruto de uma mentira orquestrada entre Demóstenes e a revista (http://migre.me/8tWID). Jamais saiu o desmentido. Até que a Polícia Federal entrasse na parada, todos ganharam.

A revista vendia mais e se tornava mais e mais temida. Cachoeira expulsava inimigos do seu território. Demóstenes se valia do poder conferido pela revista para atuar em favor dos interesses de Cachoeira na administração pública e dos interesses da revista na geração de escândalos.

Escrevi sobre esse tema em 2008, na série "O caso de Veja".  Trata-se do capítulo "O repórter e o araponga" (http://migre.me/8tWrc).

Nele conto como Cachoeira, em parceria com a revista, montou o escândalo da propina dos Correios - um grampo mostrando um funcionário recebendo R$ 3 mil de propina. De posso do grampo, a revista monta o escândalo. Como consequência, cai dos Correios o esquema liderado pelo deputado Roberto Jefferson, e assume o esquema do próprio Carlinhos Cachoeira.

Dois anos depois, a Polícia Federal liquidou com o novo esquema, mas a revista poupou seu parceiro.

Agora, a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, chega ao âmago do poder de Cachoeira, e flagra 200 ligações entre ele e o diretor da revista em Brasilia.

Há advogados que se valem da prerrogativa da profissão para atividades criminosas. O mesmo pode ocorrer com setores da mídia.

O grande desafio da mídia será mostrar sua capacidade de autocorreção. Na Inglaterra, o caso News Corp trouxe lições preciosas. Um veículo ligado ao magnata Rupert Murdoch aliou-se a setores da polícia e afrontou direitos individuais de dezenas de pessoas. Foi denunciado por outro jornal, o The Guardian. As investigações levaram a punições severas aos envolvidos na trama, mas resguardou o valor maior da liberdade de imprensa - justamente porque foi a própria imprensa soube se autopoliciar.

Vamos ver como se comportará a nossa, quando novos detalhes dessa parceria Cachoeira-Veja vierem à tona.

por Luis Nassif

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Faço só uma observação ao ponto de vista do Nassif:  O problema não é "a Imprensa", trata-se de um  fato concreto envolvendo a revista Veja que merece ser esclarecido. Ainda que se deixe tudo obscuro não será o caso de condenar a Imprensa, pois, Imprensa mesmo é algo muito maior que a revista. 
É como disse a Presidente Dilma em seu primeiro pronunciamento após ter sido eleita: "É preferível o grito da Imprensa livre que o silêncio dos porões da ditadura".  Mas há responsabilidades caminhando junto com essa liberdade...
A revista  Veja tem um problema, é preciso que ela o resolva!

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