4 de abr de 2012

Já saímos do abismo financeiro?


 
Análise Conjuntural – Abril/2012

No mês passado, Christine Lagarde afirmou que “o mundo saiu do abismo financeiro”, embora tenha admitido que a economia global ainda se encontra bastante combalida. É fato, porém, que não se sabe o que vem pela frente. Há riscos intrínsecos muito grandes.

Vale lembrar, que o mundo ficou preocupado com a Grécia como se ela fosse o centro nervoso da crise européia. Não é! O problema da crise européia é europeu, não apenas grego. Não é um ou outro país que está com problemas, são vários e, por contaminação, todos. Não poderia ser diferente. A Zona do Euro é um bloco econômico, e as economias deterioradas, com alto grau de endividamento e de desemprego, contaminam naturalmente as demais. 

Na verdade, o mundo todo é uma ilha: nós somos afetados pelos soluços da Europa e pelos espirros da China.  

No que diz respeito à Europa, discutiu-se à exaustão sobre os aportes financeiros em favor da Grécia, afim de “evitar” o calote. Terminado um capítulo da novela, acabou-se por injetar muito dinheiro na Grécia (muito mesmo), e, ainda assim, não teve jeito: os credores tiveram que “perdoar” parte substancial da dívida. Ou seja, apesar dos muitos milhões de euros gastos por um bloco econômico já em dificuldade, não se conseguiu evitar o maior calote da História. A Grécia tomou da Argentina esse desventuroso título, já que a dívida reestruturada dela é de 206 bilhões de euros contra 60 bilhões da Argentina.

Convém lembrar, que o acrônimo PIIGS não se restringe à Grécia. A Espanha, por exemplo,  tem um nível de desemprego pior que o grego. Isso mesmo, pior!  São 23,6% contra 21%. É muita gente sem renda!  

O que a Zona do Euro irá fazer? Injetar mais dinheiro na Espanha? E depois? Como fará com a fila de países com chapéu nas mãos como Portugal, Itália e Irlanda?

Como não há dinheiro para todo mundo é natural que a Europa deixe a torneira pingando nos países mais críticos para afastar o colapso (ou apenas adiá-lo, à espera de um milagre), ao mesmo tempo em que os líderes  “discutem o assunto”, valendo-se de discursos de propaganda para debelar parte dos efeitos da crise sem custos diretos imediatos.     

É evidente que a Europa ainda terá problemas muito grandes, talvez até piores do que os já enfrentados, pois os países quebrados não conseguirão, tão cedo, gerar receitas suficientes para sair da crise sem dor.  

Tem-se ainda os EUA,  também cambaleantes e enfrentando uma série de problemas no front interno e na política externa (em relação ao Irã, Coréia do Norte e Síria, cujos conflitos lhe custarão dinheiro e debilitam ainda mais um caixa já enfraquecido).

A China puxou o freio de mão. Seu crescimento está desacelerado engendrando mais dificuldades para os demais países. Mesmo que a desaceleração seja para ajustar o crecimento para níveis mais responsáveis economicamente (o que é compreensível), é fato que o mundo se ressentirá, pois haverá menos dinheiro circulando, inclusive para os demais países do BRICS.

As medidas adotadas por EUA e Europa conseguiram apenas anestesiar os mercados para permitir oportunas intervenções cirúrgicas como: reformas tributárias, previdenciárias, políticas e econômicas.

Dessa forma, temos (segundo nossa leitura), o entendimento de que os mercados se valorizaram artificialmente por conta das medidas adotadas e, muito provavelmente, irão refluir para voltar a patamares mais justos, conforme abaixo se vê (período de dois anos):



A conclusão a que chegamos é a seguinte: diante dessa conjuntura, permanecer comprado para o longo prazo está arriscado demais, valendo mais a pena, no momento, recorrer a outros investimentos mais estáveis que a bolsa como poupança e renda fixa, para, posteriormente,  retornar em pontos de compra mais atraentes ou, ao menos, mais seguros. Aos mais arrojados, que querem se arriscar, recomenda-se focar ganhos modestos e os bons dividendos que algumas empresas estão pagando, mantendo-se os olhos bem abertos ao lado de uma boa política de gerenciamento de risco e preservação de ganhos.

O mundo saiu apenas da beira do abismo, que ainda está próximo. E...cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém!

Por  Irineu Tolentino


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